A Âncora Fiscal e a Reação dos Mercados Pós-Eleição no Brasil
Um estudo do Banco Inter demonstra que a incerteza fiscal em eleições passadas depreciou o real e elevou juros. No entanto, um cenário pós-eleitoral com sinalização de ajuste fiscal crível pode levar o dólar abaixo de R$ 5, reduzir a inflação esperada e diminuir a taxa Selic, reforçando a importância da responsabilidade fiscal para a estabilidade e atração de investimentos.
A saúde das contas públicas é um pilar fundamental para a estabilidade econômica de qualquer nação, e no Brasil, um mercado emergente com histórico de volatilidade, a percepção da política fiscal é um driver crucial para os ativos financeiros. Em períodos eleitorais, a incerteza quanto aos rumos da gestão fiscal intensifica essa dinâmica, com investidores e analistas monitorando de perto os sinais que podem influenciar o câmbio, as taxas de juros e as expectativas inflacionárias. Compreender como essa incerteza se traduz em movimentos de mercado é essencial para antecipar cenários.
Um estudo recente do Banco Inter analisou o impacto da incerteza fiscal-eleitoral sobre o real e os juros futuros nas últimas três eleições presidenciais (2014, 2018 e 2022). A pesquisa revelou que, em janelas de 30 dias ao redor do segundo turno, a indefinição sobre o quadro fiscal contribuiu para uma depreciação cambial que variou entre 2% e 4%, mesmo após isolar outros riscos externos. No mercado de juros, as taxas futuras registraram um aumento médio de 0,06 ponto percentual, com um acúmulo de 0,3 ponto em toda a curva a termo. Esse movimento é explicado, principalmente, pela elevação das expectativas de inflação para o ano seguinte, o que, por sua vez, exige uma postura monetária mais restritiva por parte do Banco Central nos anos subsequentes.
Por outro lado, o estudo projeta um cenário otimista caso as eleições apontem para um ajuste fiscal percebido como crível. Tal desfecho teria o potencial de fortalecer o real, levando o dólar a patamares abaixo de R$ 5. Adicionalmente, as expectativas para o IPCA de 2027 poderiam ser reduzidas em 0,15 ponto percentual, e o mercado passaria a precificar uma taxa Selic em um nível 0,35 ponto mais baixo para os próximos dois anos. Esses números sublinham a sensibilidade dos ativos domésticos à perspectiva de uma gestão fiscal mais austera e transparente.
Em um contexto macroeconômico global onde a aversão ao risco pode direcionar capitais para economias mais estáveis, a sinalização de responsabilidade fiscal no Brasil é um atrativo poderoso. Um direcionamento fiscal claro e crível não apenas acalma os mercados domésticos, mas também reduz o prêmio de risco do país, tornando-o mais atraente para o investimento estrangeiro e diminuindo os custos de captação para o governo e as empresas. Essa dinâmica contribui para um ambiente de menor inflação e juros mais baixos, beneficiando o crescimento econômico sustentável. A percepção de credibilidade fiscal atua, portanto, como uma âncora para a economia, mitigando volatilidades e fomentando a confiança. Fonte original: Valor Econômico
Fonte: Valor Econômico