Dólar à vista tem maior alta semanal desde a crise global de 2008 com reeleição de Lula
O dólar à vista registrou a maior alta semanal desde 2008, acumulando 9,04% de valorização frente ao real. A moeda americana encerrou a semana cotada a R$ 5,4442, refletindo a frustração do mercado com a reeleição de Lula e a incerteza sobre a política fiscal do novo governo.
O que aconteceu
O dólar à vista encerrou a semana com expressiva valorização frente ao real, registrando a maior alta semanal desde a crise financeira global de 2008. A moeda americana acumulou uma valorização de 9,04% na semana, impulsionada pela reprecificação dos ativos brasileiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na sexta-feira (30/10), o dólar avançou 1,05%, fechando cotado a R$ 5,4442. Durante o dia, a cotação oscilou entre R$ 5,3872 e R$ 5,4621. No acumulado do mês de outubro, a moeda registrou alta de 5,22%. O euro comercial também acompanhou a tendência de alta, valorizando-se 1,12% e fechando a R$ 6,0803.
O real apresentou um dos piores desempenhos do dia entre as moedas globais, superado apenas pelo shekel israelense e pelo peso colombiano. No mercado internacional, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas desenvolvidas, recuava 0,14% no final da tarde de sexta-feira.
Por que importa
A forte valorização do dólar reflete a frustração de parte expressiva do mercado financeiro com o resultado eleitoral. Havia uma aposta significativa na vitória do senador Flávio Bolsonaro, e a derrota do candidato gerou um ajuste abrupto nos preços dos ativos brasileiros. A incerteza sobre a condução da política econômica e fiscal do novo governo Lula também contribui para o aumento da aversão ao risco e a busca por ativos considerados mais seguros.
A Hedgepoint, em análise, classificou o movimento de alta do dólar como tático, sem indicar uma mudança estrutural no médio prazo. A casa ressalta que o "carry largo" (diferencial de juros) segue como um suporte para o real, mas pondera que questões fiscais, aversão a risco e a precificação de altas de juros nos EUA (Fed) pesam a favor do dólar. Contrapesos como a queda do petróleo e do DXY foram, por ora, ignorados pelo mercado.
Impacto nos mercados
- Juros e títulos: A volatilidade cambial e a incerteza fiscal tendem a pressionar os rendimentos dos títulos públicos brasileiros para cima, refletindo um prêmio de risco maior exigido pelos investidores. Títulos de renda fixa atrelados à Selic podem se beneficiar no curto prazo, mas a perspectiva de inflação mais alta e juros elevados por mais tempo pode afetar a renda fixa prefixada e indexada à inflação.
- Dólar e câmbio: A tendência de alta para o dólar deve persistir no curto prazo, enquanto as incertezas fiscais e políticas não forem dissipadas. A volatilidade do real tende a aumentar, e a moeda pode testar níveis mais elevados.
- Bolsas: A bolsa brasileira (Ibovespa) tende a sofrer com a fuga de capitais e a aversão ao risco, especialmente ações de empresas mais sensíveis ao cenário doméstico e à taxa de câmbio.
- Commodities: O impacto pode ser misto. Commodities cotadas em dólar podem ter seu preço em reais elevado, mas a demanda global e a força da moeda americana no cenário internacional também influenciam.
- Brasil: A direção provável para os ativos brasileiros é de cautela e volatilidade. A pressão sobre o real e a bolsa tende a continuar, enquanto o mercado aguarda sinais claros sobre a política fiscal e a equipe econômica do novo governo.
O que acompanhar
Os investidores estarão atentos aos próximos sinais sobre a política fiscal do governo Lula, incluindo a escolha de nomes para o Ministério da Fazenda e a apresentação de propostas orçamentárias. A ata do Copom, a ser divulgada na próxima semana, e as eleições de meio de mandato nos EUA (3 de novembro) também serão importantes para o direcionamento dos mercados.
Cenários
Cenário base: O dólar mantém volatilidade elevada, com o mercado aguardando sinais fiscais claros. O real pode apresentar alguma recuperação se houver sinais de responsabilidade fiscal, mas a incerteza tende a prevalecer.
Cenário de risco: A ausência de sinais fiscais claros ou a adoção de políticas consideradas expansionistas podem levar a uma desvalorização ainda maior do real e a uma pressão de alta sobre os juros e a inflação.
Fonte original: Valor Econômico. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
Fonte: Valor Econômico