El Niño e o Brasil: Custos Econômicos da Inação Climática

O Brasil enfrenta um iminente "super" El Niño com pouca preparação, repetindo um padrão de resposta reativa a desastres climáticos. O desequilíbrio fiscal, com gastos de R$ 21,54 bilhões em reconstrução versus R$ 6,8 bilhões em prevenção, e a baixa capacidade de adaptação municipal, evidenciam a urgência de investimentos em resiliência para mitigar os impactos econômicos sobre setores chave e a estabilidade macroeconômica.

O Brasil se encontra à beira de um potencial “super” El Niño, um fenômeno climático que, embora recorrente, manifesta-se com intensidade crescente, exacerbado pelas mudanças climáticas globais. As projeções apontam para um cenário de chuvas torrenciais no Sul e secas severas no Norte e Nordeste, ecoando eventos extremos recentes como as inundações no Rio Grande do Sul e as estiagens na Amazônia e no Pantanal. Este padrão climático errático impõe desafios significativos à estabilidade macroeconômica, afetando desde a produtividade agrícola até a infraestrutura crítica e a segurança energética, com potenciais repercussões sobre a inflação e o comércio exterior.

Historicamente, a resposta do país a esses eventos tem sido predominantemente reativa, priorizando a recuperação pós-desastre em detrimento da prevenção. Dados recentes do Tribunal de Contas da União (TCU) revelam um desequilíbrio fiscal preocupante: entre 2012 e 2026, os gastos com resposta e reconstrução alcançaram R$ 21,54 bilhões, enquanto os investimentos em ações preventivas totalizaram apenas R$ 6,8 bilhões. Essa alocação de recursos não apenas gera uma pressão fiscal contínua, mas também desvia capital que poderia ser investido em setores produtivos, comprometendo o crescimento econômico de longo prazo e a resiliência do país.

A fragilidade da política de prevenção é multifacetada, conforme apontado pelo TCU. Falhas no monitoramento e avaliação das ações, mapeamento inadequado de áreas de risco e um elevado percentual de obras de infraestrutura inacabadas ou paralisadas (37%) ilustram a deficiência na gestão de riscos. A despeito da promulgação da Lei 14.904/2024, que exige dos municípios o planejamento para adaptação climática, a maioria das cidades brasileiras demonstra baixa ou baixíssima capacidade de resposta a eventos extremos, segundo a plataforma AdaptaBrasil. Essa lacuna na governança local amplifica os riscos econômicos, tornando comunidades e cadeias de valor ainda mais vulneráveis.

Para os mercados financeiros e o ambiente de negócios, a persistência da inação climática traduz-se em maior incerteza e custos elevados. Setores como agricultura, seguros, logística e energia são particularmente expostos a flutuações de preços, interrupções na cadeia de suprimentos e aumentos de prêmios. A previsibilidade climática é um fator crucial para o planejamento de investimentos e a tomada de decisões corporativas, e sua ausência pode afetar a atratividade do Brasil para o capital estrangeiro. A construção de uma economia mais resiliente exige uma mudança de paradigma, com investimentos substanciais em infraestrutura adaptativa, sistemas de alerta precoce e políticas de uso do solo que considerem os novos padrões climáticos.

Fonte original: Valor Econômico

Fonte: Valor Econômico