Resiliência das famílias australianas pode levar o RBA a mais aperto monetário, aponta Deutsche Bank

O Deutsche Bank sugere que a resiliência das famílias australianas às altas de juros pode exigir que o Reserve Bank of Australia (RBA) intensifique o aperto monetário para controlar a demanda. Isso eleva a probabilidade de um quinto aumento da taxa de juros em novembro, impactando a curva de juros e o dólar australiano.

O que aconteceu

O Deutsche Bank avaliou que as famílias australianas estão mais resilientes aos aumentos das taxas de juros do que se esperava, apesar dos altos níveis de endividamento. Segundo Lachlan Dynan, estrategista macro do banco, o crescimento dos ativos das famílias permaneceu forte, e a relação dívida/renda se estabilizou, levando a relação dívida/ativos ao menor nível desde 1997. Essa análise sugere que o canal de transmissão da política monetária, que afeta o fluxo de caixa das famílias, está mais fraco do que na última década, o que significa que cada aumento de juros tem um impacto menor na renda disponível.

Essa visão contrasta parcialmente com documentos internos do próprio RBA, que alertaram para os riscos de uma queda nos preços das casas e uma possível correção de 20% nas ações de inteligência artificial (IA), o que poderia reduzir o consumo de longo prazo em cerca de 2,5%. No entanto, o RBA, em sua Revisão de Estabilidade Financeira de 1º de outubro, também indicou que a maioria das famílias com hipotecas está bem posicionada para gerenciar condições mais difíceis, mesmo com quedas acentuadas nos preços dos imóveis, embora tenha notado focos de estresse.

O RBA elevou sua taxa de juros para 4,6% em 29 de setembro, o quarto aumento este ano, em meio a pressões inflacionárias, com o petróleo acima de US$ 100 o barril. Os pagamentos de hipotecas variáveis deverão subir a partir de 9 de outubro para refletir essa movimentação.

Por que importa

A resiliência das famílias australianas, conforme apontado pelo Deutsche Bank, é um fator crucial para a política monetária do RBA. Se os aumentos de juros têm um efeito menos pronunciado sobre o fluxo de caixa das famílias, o banco central pode precisar de um aperto monetário mais agressivo para desacelerar a demanda e controlar a inflação. Isso implica que o RBA pode não ter margem para dar o benefício da dúvida às famílias, especialmente com a inflação elevada. A próxima decisão do RBA está marcada para 3 de novembro, e o mercado está dividido sobre a possibilidade de um quinto aumento de 25 pontos-base, elevando a taxa para 4,85%.

Impacto nos mercados

  • Juros e títulos: A perspectiva de que o RBA precise apertar mais a política monetária tende a elevar os rendimentos dos títulos de curto prazo na Austrália, especialmente na ponta curta da curva, refletindo a expectativa de mais altas de juros. Isso pode levar a uma inclinação negativa da curva de juros, com os rendimentos de curto prazo subindo mais que os de longo prazo.
  • Dólar e câmbio: Um RBA mais hawkish (inclinado a subir juros) tende a fortalecer o dólar australiano (AUD) em relação a outras moedas, especialmente aquelas de países cujos bancos centrais estão mais próximos do fim de seus ciclos de aperto monetário. Isso ocorre porque taxas de juros mais altas tornam os ativos denominados em AUD mais atraentes para investidores estrangeiros.
  • Bolsas: Ações australianas podem enfrentar pressão de baixa, especialmente setores mais sensíveis a juros, como o imobiliário e empresas com alta alavancagem. A expectativa de juros mais altos aumenta o custo de capital e pode desacelerar o crescimento econômico, impactando os lucros corporativos. No entanto, a resiliência das famílias pode amortecer parte desse impacto negativo sobre o consumo.
  • Commodities: Embora não seja um impacto direto, a política monetária australiana pode influenciar o sentimento global. Um dólar australiano mais forte pode, em tese, tornar as commodities precificadas em dólar americano mais caras para compradores australianos, mas o impacto global é limitado. A alta do petróleo acima de US$ 100 já é um fator de pressão inflacionária.
  • Brasil: Indiretamente, um cenário de aperto monetário mais prolongado em economias desenvolvidas, como a Austrália, pode contribuir para um ambiente global de maior aversão ao risco e dólar mais forte. Isso poderia exercer pressão sobre o real e os ativos brasileiros, embora o impacto direto seja marginal devido à distância geográfica e econômica.

O que acompanhar

Os investidores devem monitorar de perto a próxima decisão do RBA em 3 de novembro, que será crucial para confirmar ou invalidar a leitura de um aperto contínuo. Além disso, os dados de inflação do terceiro trimestre, a serem divulgados em 28 de outubro, serão fundamentais para a decisão do RBA. Qualquer nova comunicação do RBA ou de seus membros sobre a resiliência das famílias e as perspectivas para a inflação também será importante.

Cenários

Cenário Base: O RBA implementa um quinto aumento de juros em novembro, elevando a taxa para 4,85%, devido à resiliência das famílias e à persistência da inflação, o que sustenta o dólar australiano e os rendimentos de curto prazo. Cenário de Risco: Uma desaceleração mais acentuada do que o esperado nos preços dos imóveis ou uma correção significativa nas ações de IA afeta a confiança do consumidor e o consumo, levando o RBA a pausar ou reconsiderar novos aumentos de juros.

Fonte original: ForexLive (InvestingLive). Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.

Fonte: ForexLive (InvestingLive)