Varejo Brasileiro: O Impulso da Renda Contra a Fricção dos Juros

O varejo brasileiro registrou duas altas consecutivas em julho, mas a recuperação é desigual, com setores de renda crescendo e os dependentes de crédito em declínio. Economistas alertam que é cedo para falar em melhora sustentável, devido aos juros altos e endividamento elevado que limitam o consumo de bens duráveis, apesar do suporte da renda e emprego.

O setor varejista brasileiro registrou um aumento marginal de 0,9% em julho, marcando o segundo mês consecutivo de crescimento, conforme o Índice do Varejo Stone (IVS). Apesar da sequência positiva, a leitura dos dados revela um cenário complexo e com nuances significativas. A recuperação não é homogênea, delineando uma clara dicotomia entre segmentos de consumo, o que sugere que a economia ainda navega por águas turbulentas com ventos e correntes em direções opostas.

A análise mais aprofundada do IVS de julho expõe essa fragmentação. Setores mais diretamente atrelados à renda disponível das famílias, como produtos farmacêuticos, combustíveis e itens de hipermercado e supermercado, mostraram resiliência e crescimento. Por outro lado, categorias mais dependentes de crédito e de bens duráveis, como vestuário, calçados, móveis e eletrodomésticos, continuam a enfrentar dificuldades, registrando quedas. Curiosamente, o segmento de material de construção, que teoricamente também depende de financiamento, conseguiu um leve avanço, desafiando a tendência geral dos setores sensíveis ao crédito. Essa disparidade sublinha o impacto persistente das elevadas taxas de juros e do endividamento sobre a capacidade de compra de bens de maior valor.

Economistas observam que, enquanto um mercado de trabalho relativamente aquecido e a recomposição da renda oferecem um "colchão" para o consumo essencial, o "teto baixo" imposto pelos juros reais altos e pelos níveis elevados de inadimplência e endividamento limita o ímpeto de compra para itens não essenciais ou que exigem parcelamento. Essa dinâmica de forças opostas gera cautela quanto à sustentabilidade da recuperação. A desaceleração no crescimento anual do IVS, de 5,4% em junho para 4,7% em julho, corrobora a visão de que a trajetória de melhora ainda é frágil e incerta, com a possibilidade de um recuo em agosto não sendo descartada.

Em um contexto macroeconômico global de taxas de juros elevadas para combater a inflação, o Brasil não é exceção. A manutenção de uma política monetária restritiva, embora necessária para a estabilidade de preços, continua a exercer pressão sobre o crédito e, consequentemente, sobre o varejo de bens duráveis. A expectativa é que a trajetória do consumo continue a ser um termômetro crucial para a saúde econômica, com os próximos meses indicando se o suporte da renda será suficiente para superar os desafios impostos pelo custo do capital.

Fonte original: Valor Econômico

Fonte: Valor Econômico